quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

me dá as suas asas



Eu já escrevi duzentas páginas. Duzentas páginas que volta e meia ficam brancas. É uma loucura acreditar na pureza. Eu acredito na minha pureza, na pureza das letras, na pureza do amor, na pureza dos olhos. Mas o que isso me acrescenta?
Hoje eu estive bem perto de um pombo, mas não tive coragem de tocá-lo. O pombo era muito branco, olhos muito vivos e senti que ele estava com medo de morrer. Quis deixar aquele momento intacto. Mas talvez precisasse segurá-lo pelas asas e sentir o seu sangue quente. Não o fiz. Um silêncio enorme abriu a boca: o que era vivo se foi.

Eu não quero ser um choque, mas é assim que os outros me vêem porque me confessaram. Dizem que meus olhos baixos e meus ombros inclinados demonstram minha fraqueza no mundo. Ora, o que faço eu aqui então? Eu acho que eu luto, não sei bem.

A pureza sempre foi uma coisa que me perseguiu. Mas aí eu fui num terreiro segurei as mãos de um preto bem velho e ele sussurrou que minha coroa era grande demais pra querer ser outra coisa. O meu destino estava traçado sem eu precisar pegar em um lápis se quer. Quem desenhou as minhas linhas? Eu quero olhá-lo de frente, mas Ele nunca aparece, nunca faz questão de uma amostra da Sua presença. Eu nunca desacredito isso não. Mas ás vezes O chamo por outros nomes só para cair na normalidade e ás pessoas não me acharem mística demais. Eu me preocupo muito com esses achismos alheios por medo de que alguma verdade caia tão bem em mim que eu acabe esquecendo quem eu era.

Eu quero ser apenas. Ser no instante. Igual ao pombo com medo. Ele trazia nos olhos uma morte, mas mesmo assim permaneceu em silêncio, entregue. Como ser entregue a esse instante? Por exemplo, agora meu coração está doendo muito. Falar com um grande amor mal resolvido sempre dói muito. Tola que sou não consigo me entregar ao instante e estar em silêncio, em profunda gratidão por pelo menos ter sido até aqui. Não, eu me esbofeteio. Eu me rasgo, sofro na carne essa ignorância humana.
Eu não quero ir para o sono. A noite me cansa como se fizesse um parto. Ter um filho deve ser um alívio para o corpo, mas trabalhar no parto, cara a cara com uma vida selvagem que vem gritando debatendo um espaço vazio,deve ser hipnótico.

Deus é selvagem. Essa é uma certeza que invento pra poder vibrar um amor superior ao que sinto agora. Não, não, eu não invento. Eu tenho essa certeza. Deus é selvagem e eu fico muito satisfeita quando vejo sua força descendo no mundo. Às pessoas lamentam uma natureza devastada quando ela apenas está nascendo para o seu interior, que estava ali, pronto para berrar. A consciência humana logo mais renascerá para outra liberdade, porque essa que fazemos questão de verbalizar já não existe.
Meu coração está doendo ainda por aquele amor mal resolvido e ele mesmo não estando presente me tira as palavras do agora. Que poder misterioso tem os que não estão presentes? Controlam nossa mente, nossas atitudes e desmancham o coração apenas com uma lembrança. O Amor é muito selvagem.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Os muitos focos




Eu vou fazer de conta que sou uma mulher segura. Vou me enganar um pouquinho dizendo em voz alta que posso ficar sozinha e que esse é o melhor estado em que já estive. Eu vou digitar palavras pra você como se estivesse feliz da vida, com ocupações de uma mulher independente.



Eu não sei como explicar direito essas coisas de intuição. Foi assim: eu olhei pra você e não vi nada. Aí eu olhei nos seus olhos e senti aquela sensação boa de reencontro. Eu desviei o olhar porque inicialmente sempre acho que essas coisas são loucuras da minha cabeça e eu tenho o vício de acreditar nelas. Você abaixou a cabeça e eu olhei fixamente por alguns segundos: não são loucuras. O silêncio dos olhos é feito de uma substância quase mística; dizem que nos sonhos conversamos sem palavras, e essa nossa conversa foi quase como um sonho sem lógica, mas carregado por dois corações encharcados da delicadeza do novo.


Não lembro exatamente como encostamos os nossos lábios, mas lembro da sensação primeira do contato dos nossos corpos: como se dois focos estivessem viajando por muitas dimensões e finalmente e inesperadamente se chocam. Nós sorrimos com os olhos e nos entrelaçamos.


Acho que não posso mais falar do que aconteceu desse momento pra frente. A magia foram esses segundos. O depois me dói pelas interferências do mundo. Deixamos alguma coisa se perder, e nem ao menos sabemos o que. Nunca mais nos vimos. Nunca mais nos olhamos, a não ser pela tela de um computador.


Esse é um segredo que me dói: ter te perdido antes de confirmar minhas intuições.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Nota: Preguiça


Eu e Ina temos conversado muito sobre muitas coisas que queremos escrever e postar aqui (a maioria dos posts surge das nossas conversas, outros não - o blog é como uma casa que dividimos, cada uma tem a sua chave, cada uma com seus horários. Quando temos vontade, precisamos, queremos, vimos até aqui e deslanchamos a escrever)...
Mas... estamos com preguiça.

Preguiça, sim (!).
E não é preguiça só de parar diante de uma tela (ou papel) branca e escrever. Não, não é um bloqueio criativo. O bloqueio é quando você está tão estressado que não consegue se desconectar de um assunto e criar. Um pensamento que te martela a cabeça e... bloqueia, uai. rs
Estamos com preguiça das pessoas, da complicação dos relacionamentos... ai, cansa só de pensar.


Estamos num momento de reformulação do quebra-cabeças. Parece brincadeira, mas na mesma semana, ambas saíram de seus empregos, ambas terminaram um relacionamento... cada qual por um motivo, mas o sentimento e desgaste são iguais.


Assistimos uma boa peça (! apesar de tanta coisa ruim em cartaz !) e pretendemos colocar um texto sobre ela, logo menos (ou mais, rs). A gente faz questão de compartilhar tudo que achamos que vale a pena com vocês que lêem o blog. Porque, pff, vai parecer balela o que vou falar (escrever?), mas a gente acredita que tudo o que é belo precisa ser partilhado... e, no entanto, tem muita gente que guarda essas coisas só para si.


A gente tenta traduzir, cada uma da sua forma, as experiências que vive, o nosso olhar sobre a vida... Papel de seda... entendem, né?
Eu sei que entendem! Pois quem lê regularmente esse blog - apesar de nem sempre comentarem, seus preguiçosos - tem que ter uma sensibilidade alta pra compreender as mensagens. Perdão, insensíveis.


É isso!
A gente tá precisando de um tempo. Tempo de introversão, tempo de revisão...
No tempo certo a gente volta.
(:

O tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu pro tempo, que o tempo tem o tempo que o tempo tem!

sábado, 21 de novembro de 2009

O caminho mais difícil...

A gente preferiu o caminho mais longo e bonito ao mais rápido e conhecido.


A gente optou por ouvir o coração, a ser levadas pela multidão.


A gente escolheu trilhar, passo a passo, o nosso próprio destino.


Nossos passos podem parecer lerdos, mas eles não devem ser medidos pelo tamanho da passada. O ritmo é outro. Não há pressa, não usamos cronômetros, não há competição. O que deveremos fazer, faremos, completamente, leve o tempo que tiver que levar.

Os olhar alheios nos olham tortos e... piedosos. Com compaixão...

Decerto, há alguns momentos mais vulneráveis, quando o desânimo e a ansiedade apertam o peito e crepita uma vontade de gritar e sair correndo - como se a velocidade fosse apagar nossos rastros, nossos pensamentos, nossas vidas... ou atenuar, ou destruir as dificuldades do caminho.
Mas são momentos.

Como vulcões, quando entram em erupção e derramam sua vala, que queima e devasta por onde passa... assim são esses momentos frágeis, de raiva e angústia.
Ou como uma tempestade interna. Quando pensamentos e atitudes nebulosas infestam nosso interior e cobrem a luz do nosso sol. Que só volta a brilhar quando pensamentos novos e alegres retornam para espantar o mau tempo, e o sol volta a brilhar.

Não a toa, isso pode acontecer por termos encontrado pessoas que também optaram pelo caminho difícil. E a presença deles lá, diante de nós, garante que vale a pena prosseguir e que os momentos ruins sempre virão e que é preciso aprender a lidar com isso. E que esse caminho tortuoso, cheio de atalhos, que não está nos mapas, apesar de tudo, não deve ser abandonado. Porque, na verdade, não há caminho certo.
O caminho se faz ao andar, ao desbravá-lo... e a chegada só se dá quando o sol, o nosso sol, brilha mais forte, apontando que ali está, chegamos.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Acende a luz

Olha que coincidência estranha. rs Escrevi esse texto ontem, antes do apagão...



O mundo está na escuridão.
As pessoas estão com suas luzes apagadas.
A gente se pergunta, quando foi que nossa luz se apagou? Quando deixamos de ter consciência da nossa totalidade? De ser sencientes?
De que forma vamos nos tornando pessoas sem brilho?

Será como um apagão, de forma abrupta?...
Não, nossa luz vai se apagando aos poucos, vai perdendo a energia gradativamente... São as pequenas situações desgastantes, que provocam sentimentos ruins, que vão enxugando, desgastando nossa luz.
Também não nos é capturada por ninguém sem a nossa permissão.
É o trabalho que te faz mal, é a frenética rotina estressante da cidade, é a contaminação e apodrecimento dos pensamentos circulantes...


Pára.



Se desliga de tudo.



(Re)Acende a luz... e BRILHA!!